Panelinhas e coalizões

O termo científico para panelinha é coalizão.

Coalizões não são equipes: equipes têm mútua responsabilidade, coesão e propósitos formais; coalizões têm propósitos informais além dos formais, por isso as responsabilidades não são claras – pode haver “eminências pardas” e a coesão é fruto de constante convocação. A sustentabilidade de qualquer coalizão depende de sua capacidade de exercer influência sobre o público, para crescer e conquistar maior espaço e hegemonia. 

Original em zagaz.work

Coalizões são grupos informais reunidos em torno de interesses comuns visando atingir propósitos especiais.

Esse termo nasceu nas ciências políticas. É na política que as coalizões desempenham papel relevante. Algumas coalizões são institucionalizadas: no regime parlamentar, por exemplo, se um partido não atinge a maioria, a governabilidade demanda a criação de coalizão. No Brasil há, ainda, o “presidencialismo de coalizão” devido à pulverização de partidos políticos. Na política as coalizões competem entre si: é a disputa de poder representada pelo “nós contra eles“. O lado sombrio das coalizões, e que devemos sempre denunciar e combater são, por exemplo, os conluios interferindo na concorrência, as coalizões para praticar lobbying ilegítimo e para o crime.

Mas há coalizões benignas: nos movimentos ambientais, sociais e artísticos: formam-se “correntes” com mútuos interesses. Organizações representam um ambiente muito politizado: há disputas de poder, interesses antagônicos e portanto, existem coalizões.

Olhe à sua volta: nas organizações onde a questão da lealdade é sempre repetida, possivelmente há coalizões. Porque cada coalizão exige lealdade de seus membros: o “vestir a camisa”. Nas grandes organizações há maior possibilidade de existirem coalizões. Nas grandes “equipes” há maior chance de existirem coalizões já que o trabalho em equipe para ser coeso requer grupos grandes. Nas organizações, as coalizões não têm fronteiras, portanto podem incluir pessoal externo: consultores, fornecedores, conselheiros e até mesmo entidades do terceiro setor. São redes informais, constantemente estimuladas em eventos, daí que a assiduidade de seus participantes nesses eventos é muito alta. Reuniões esvaziadas, que não cativam participantes, denotam que não há coalizão.

As coalizões nem sempre são competitivas: há coalizões cooperativas.

Conheci organizações em que o tema do desenvolvimento sustentável prosperou porque formou-se uma coalizão dominante que incluía executivos de topo. Conheci empresas estatais cujo desempenho foi recuperado por uma coalizão para que não perdesse valor no processo de privatização. Conheço organizações onde há coalizões cooperativas para impulsionar grupos de projetos relacionados a estratégias especiais. Conheço empresas que formaram coalizões com concorrentes visando influenciar positivamente o ambiente regulatório. Note como as coalizões servem à defesa de causas, à defesa da organização e para impulsionar estratégias.

Nas organizações do setor público onde há prazo para a gestão de dirigentes, as coalizões abundam.

No terceiro setor, aquilo que costumam chamar de “parcerias” na maioria das vezes se refere a coalizões. No setor privado, quando não há alianças e consórcios entre empresas, elas formam coalizões nas entidades de classe e nas relações com governo e órgãos regulatórios. Toda coalizão organizacional tem objetivos formais e também informais, o que significa que grande parte do esforço se destina aos formais, mas também há esforço dedicado aos objetivos informais. Talvez por isso despertem controvérsias.

Cidadania organizacional

Vamos para outro fenômeno organizacional. Há pessoas que realizam tarefas além de suas obrigações formais, até mesmo fora dos horários de expediente, sem esperar nada em troca. Imagine o que move tanta disponibilidade! Chamamos a isso de “cidadania organizacional”. Há quatro tipos de ação de cidadania:

  • Empreendimento pessoal: ação voluntária para resolver entraves e para defender causas internas ou externas;
  • Reforço da lealdade: esforço voluntário para promover a imagem da organização junto a público externo, atuando como “embaixador” informal;
  • Iniciativa pessoal: esforço voluntário para ampliar o desempenho coletivo, seja agregando colegas, como “anfitrião” para novos colaboradores ou para atenuar problemas de comunicação interna;
  • Ajuda interpessoal: esforço voluntário para ajudar colegas em seus afazeres e obrigações; esforço em ações educacionais; participação em esforço concentrado para solução de problemas (e crises).

Quanto mais gente participa da cidadania organizacional, mais “riqueza invisível” é gerada – de modo similar ao que ocorre na sociedade do conhecimento. Ou se preferir, mais capital intelectual é gerado, portanto tende a aumentar o valor de mercado e o “goodwill” da organização. A cidadania organizacional gera maior coesão e senso de pertencimento no pessoal; aprimora o clima organizacional e portanto melhora o nível de satisfação do pessoal com o trabalho; estimula a mentalidade de cooperação, para atenuar a competição fratricida entre colegas de trabalho; soluciona prontamente pequenos entraves às operações. Em resumo, promove o desempenho e a sustentabilidade organizacionais. E o que é ainda mais notável: educa para a responsabilidade social!

Juntando coalizão e cidadania

As coalizões tendem a produzir mais adeptos da cidadania organizacional porque educam para a cooperação e para a responsabilidade social coletiva. Do mesmo modo, a cidadania organizacional tende a se iniciar fazendo uso de coalizões, existentes ou criadas para esse propósito.
Mas não devemos confundir os dois fenômenos: há coalizões que desafortunadamente nada tem a ver com cidadania. Ambas, coalizões e cidadania organizacional representam esforços voluntários, portanto não são podem ser controladas por alguém externo ao processo. Sua informalidade faz com que operem à “sombra”, muitas vezes passando desapercebidas.
Isso talvez explique o temor que exercem em certas organizações, que fazem de tudo para combater as “panelinhas”. Eu prefiro trazer à luz esses fenômenos, para que encontrem espaço para ressoar nas organizações. Se seu propósito é ético e cooperativo, não há porque deixar à sombra. Sei que muita gente se frustra com a “politicagem” nas organizações. Mas se é um fenômeno usual dos grupos sociais, não adianta ignorar ou deixar de lado. Melhor seria aprender a fazer a boa política, o melhor antídoto para a má politica – em todos os campos da vida: nas organizações e na sociedade. Precisamos motivar mais gente para a cidadania, em todos os campos onde vivemos.

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