Meritocracia e o papel da parcialidade no Brasil, ou Carta de uma estagiária ao presidente da empresa

em Administradores.com.br,
por Bruna Bastis em http://administradores.com.br/artigos/carreira/meritocracia-e-o-papel-da-parcialidade-no-brasil/79478/

messibolas

Sejamos sinceros, na maioria das vezes, vários candidatos apresentam o seu melhor lado, e são descartados porque, em realidade, nunca tiveram a menor chance de serem admitidos.

Ao Sr. Presidente,

Venho hoje expor meu descontentamento. Palavra chata, de aura carregada, talvez péssima para iniciar uma conversação ou apresentação qualquer. Mas, fato é que, não há outra definição, vistos os caminhos pelos quais o país envereda-se.

Ocorre que, cansada de ver e experimentar inúmeras tentativas falhas, aparentemente sem motivo tangível, gostaria de falar sobre a questão da meritocracia, aquele conceito perpassado nos cursos de Administração, embora nada mais seja que um termo que se define por si só. Meritocracia – a cada um, conforme seus merecimentos. Ou seria a cada um conforme seus méritos?

Nesse caso, a palavra se enquadraria diferente. Mérito tem um caráter hereditário, intrínseco e genealógico em sua composição. Merecimento, já, caracteriza-se mais como uma consequência de esforço – a batalha que os fortes entravam todo dia, para destacar-se frente a um mundo padronizado e superpovoado, padronizado por tendências de comportamento e correntes de impulsos coletivos.

Atualmente estou em minha segunda faculdade. Interrompi a primeira, após meio curso sem perspectivas de futuro ou sobrevivência em um curso que enfatiza o conhecimento. Sim, afinal, em Ciências Biológicas, após formar-se, ou você se torna professor, ou passa em um concurso – e aí estará garantido, como a boa média dos brasileiros deseja estar hoje em dia. De outro modo, há apenas sobrevivência – o regalo máximo conquistado após diversos anos de estudo e publicações. Contudo, eu não quero garantias. Quero dinamismo. Talvez alguma incerteza. Alguma ainda seria melhor do que nenhuma. A garantia de que meu trabalho e dedicação não serão apenas mais uma rotina e estabilidade perpétuas, como a de qualquer concursado que tem seu emprego e salário garantidos, o conforto da estaticidade mínima (se for pra ascender, ótimo; mas nada de descer ou reduzir, nada de riscos, por favor) e uma vida sem grandes demandas.

Ou seja: eu quero carreira – em uma multinacional, alguma organização que me possibilite novos horizontes e desafios – posso nela entrar como uma simples estagiária, é evidente: assim aprenderei com a organização, e a esta poderei transmitir meu empenho e qualificações. Entretanto, que esse processo seletivo seja qualificativo: coerente e, antes de tudo, transparente. Não apenas mais uma seleção intitulada como tal, pretexto para a colocação de um ou outro apadrinhado na empresa de destino.

Nunca foi questão de almejar algum cargo superior, de imediato. Até por enfatizar a questão da meritocracia, reconheço minhas limitações e não irei colocar-me acima da experiência de mercado exigida para alguns cargos – seria controverso, e, prepotente, de minha parte. Nada de orgulhos mesquinhos ou pretensões astronômicas. O problema era justamente a questão do estágio. O estágio – a instituição que proclama ensinar o indivíduo a qualificar-se dentro dos valores da empresa. O estágio – que admite jovens talentos. Contudo – onde está o talento? Onde estão os pré-requisitos? Onde está a meritocracia, que garante selecionar os perfis mais aptos a ocupar uma vaga, ou os candidatos mais qualificados para tal? Os melhores.

Em um mundo altamente competitivo, os melhores se destacam – o padrão leva a vida adiante, somente. Se as seleções servem para a aplicação desta triagem, por que em muitas somos desclassificados sem critérios de reprovação? Sou ciente de testes em que fui aprovada, trabalhos para os quais meu perfil condiz com todos os critérios – mas a resposta veio tardia (ou não veio):infelizmente ficamos com outro candidato com perfil mais adequado ao cargo.

Não foi apenas no nicho dos estágios que comprovei esta infeliz realidade. Inclusive em trabalhos temporários, aos quais, muitas vezes, quem recorre o faz porque é necessário naquele momento – não por alguma espécie de luxo, afinal, a instabilidade de ter-se um trabalho por 15 dias, e nada após, não é uma perspectiva muito confortante para ninguém – eu vi, pessoalmente, essa realidade. De nada adianta você cursar alguma faculdade, falar inglês fluente (isso não está em questão) ou alguma outra língua, saber vender bem o produto, possuir conhecimento técnico. O que importa, no fim, é quem você conhece. Qual o seu grau de intimidade ou amizade com alguém dentro da empresa-destino, ou para com o(a) recrutador(a).

Após tantas tentativas, já tenho horror ao RH, assim como o tenho a psicólogos – sempre classificando os demais, pelo seu ponto de vista pessoal. Ocorre que cada um é ciente, por suas próprias vivências, da experiência que carrega. Você pode ter múltiplos cursos na área da psicologia – isso não é sinônimo de que será um bom profissional – significa apenas que cursou vários cursos. É possível que tenhas adquirido conhecimento, entretanto, isso não é garantia de que esse conhecimento seja vinculado de modo coerente ao mundo prático. Um bom profissional é imparcial – não mede suas preferências ou tendências e relacionamentos pessoais, mas avalia os candidatos conforme seu desempenho no processo. Não contempla apenas padrões, classificações, e testes pré-estabelecidos com pontuações de praxe. A escrita é passível a elaborações, assim como os discursos.

Em vários processos seletivos, vi a farsa ocorrendo lado a lado, de modo concomitante. Hoje, não me importo mais. No caso de vir a ser chamada, atendo à seleção; mas não dou excessiva importância a qualquer detalhe do processo, porque sei que há falhas e entraves em muitos deles. Houve diversas vagas em que, após ser convocada às seleções, por análise de currículo e compatibilidade de perfil, ao final dos processos fui rejeitada por não ter o perfil mais próximo à vaga. Se comprovo, pessoalmente, o mesmo que afirmo em meu currículo – que minhas intenções são nas áreas X, Y e Z, que tenho tais intentos profissionais, cursos conforme especificado – então, escusas à parte, acho que, sim, meu perfil confere, pelo menos para um simples estágio. Se não sou apta para tal vaga, tudo bem, contudo, por favor, diga-me os motivos reais.

Sejamos sinceros: na maioria das vezes, vários candidatos mostram o seu melhor (ou o que conseguem expor deste, devido ao nervosismo nas seleções), e são descartados porque, em realidade, nunca tiveram a menor chance de serem admitidos. Conte-me o que foi passado nas entrelinhas; que há candidatos que comparecem aos testes, embora apenas como validação de vagas que já lhes são garantidas. Que há de fato, a requisição de QI. Nada de quociente de inteligência ou capacidades mentais quaisquer – é preciso o imperativo “quem indica”.

Há muito tempo venho tentando diversos processos seletivos, em particular um, relativo a uma multinacional no setor de produtos da alimentação, para com a qual sinto que me realizaria em trabalhar, em todos os âmbitos de minha vida.  E, por muito que tenho visto até o momento, não há nada de aplicação da teoria – que, nesse caso, nem é questão acadêmica: é questão de ética. Infelizmente, tal é o atual panorama do Brasil; a estrutura falha do país se reflete nos processos internos, nas conveniências das relações, na inveracidade dos anúncios. Eu acredito no perfil & missão de algumas empresas, contudo, eu gostaria mais de acreditar que a conveniência das relações não seja o imperativo principal que dita as admissões atualmente, e, sim, o merecimento.

E, sim, hoje consegui um estágio em uma multinacional, onde me realizo com minha área de trabalho e o perfil da empresa, embora, antes de tudo, tenha me realizado por tê-lo conquistado por minha própria iniciativa – e não pela mão de terceiros.

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