Criando um novo ambiente de trabalho (parte 1)

por José Davi Furlan no LinkedIn

WorkingHereSucks

As organizações tradicionais de alto desempenho têm elevados níveis de estresse e normalmente as pessoas agradecem a Deus por ser sexta-feira e a semana de trabalho terminar. Durante o final de semana tentam encontrar uma solução em livros como “Stress-proof Your Life” ou “Stress Buster: How to Stop Stress From Killing You“, mas não encontram. Vem o domingo à noite e começa o mal-estar, afinal o dia seguinte será segunda-feira e tudo recomeça. Muitos odeiam o que fazem, e nada é mais desgastante do que odiar algo e ter de continuar fazendo para sobreviver – e fazer mais aquilo que se odeia todos os dias. O sentido humano ausente nas relações de trabalho, sem espaço para as pessoas serem o que são, condicionadas à rotina e pouca criatividade. É tão complicado trabalhar que no Brasil a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) possui 60 mil palavras de regulamentações, isso porque já se trata de uma consolidação. Em comparação, os Dez Mandamentos possuem menos de 300 palavras. Não precisaria ser assim, o trabalho deveria servir a propósitos mais elevados do que simplesmente causar tormento para se ganhar a vida. Quando há felicidade no trabalho, não é necessário esperar pelo happy hourem busca de um momento feliz.

Platão dizia 400 a.C. que trabalho era o que escravos deviam fazer (o “negócio”, ou a negação do ócio) enquanto homens livres podiam se dedicar ao ócio (pensar sobre a vida). Em seu íntimo, as pessoas até hoje carregam a noção de que se puderem se libertar do trabalho, estarão se libertando da escravidão. A palavra “trabalho” em português deriva do latim “tripalium” um instrumento romano de tortura que se constituía de três estacas agudas: “tri” (três) + “palum” (pedaço de madeira). Se ócio é a possibilidade de fazer, trabalho é a obrigação de fazer: algo ruim, indesejado, um atributo de inferioridade pessoal e de punição dos pecados (“No suor do teu rosto comerás o teu pão. Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden para lavrar a terra de que fora tomado” Genesis).

Trabalhar, juntamente com dormir e ficar em frente a algum dispositivo eletrônico (TV, computador, smartphone ou tablet) são as atividades que tomam a maior parte do tempo de pessoas adultas. A diferença entre essas atividades é que trabalho é uma obrigação enquanto as demais uma opção. Para a maioria, trabalho não é diversão, apenas um meio de se ganhar a vida.

Muitas organizações consciente ou inconscientemente fazem do trabalho uma sessão de tortura: instalações ruins, chefes ruins, clima organizacional ruim, dia extenuante, horas extras, experiente sem fim. O ambiente de trabalho ainda abriga manifestações de ciúme, rancor, inveja, maledicência, cobiça, maldade que perturba o julgamento, busca por metas inalcançáveis, riscos à saúde, baixas remunerações e falta de reconhecimento. Mesmo sob essas condições e à revelia do idealizado mundo dos negócios em que sentimentos não se confundem com relações de trabalho, é possível ver a resistência humana por meio de manifestações de amor, altruísmo, companheirismo e solidariedade. De acordo com o Deloitte’s Shift Index nos EUA, 80% das pessoas estão insatisfeitas com seu trabalho, e no Brasil os números da pesquisa da International Stress Management no Brasil são parecidos: 76%.

Esses percentuais coincidem com a pesquisa do IPOM (Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente) em que 68% dos entrevistados afirmaram não estarem satisfeitos com a sua carreira, além de se sentirem vítimas de chefes injustos e de um sistema de trabalho que não reconhece a meritocracia. A pesquisa ainda demonstrou que 65% dos entrevistados não fazem o que gostam, mas toleram exercer uma atividade sem prazer por questões financeiras, familiares ou por imposição; 40% preferem esperar que as coisas aconteçam naturalmente e se acomodam e engolem frustrações até a vida se tornar insuportável ou a saúde se debilitar.

A Foxconn na China com suas redes de proteção ao suicídio instaladas do lado externo dos prédios da companhia se tornaram um ícone do equipamento de tortura no qual as organizações se transformaram. As redes de proteção foram instaladas após o suicídio de 20 funcionários em 2011 seguido da ameaça de outros 300 em pular do topo do prédio em Wuhan caso as reivindicações não fossem atendidas. Terry Gou, presidente da companhia, comparou os funcionários da linha de montagem da empresa a animais em um encontro com seus gerentes, de acordo com a reportagem do Want China Times em 20/01/2012: “A Hon Hai tem uma mão de obra de mais de um milhão no mundo e como seres humanos também são animais, gerenciar um milhão de animais me dá dor de cabeça”. Hon Hai era parte do grupo Foxconn na ocasião. Segundo o jornal chinês, Gou também teria dito que gostaria de aprender com o diretor do zoológico de Taipei, Chin Shih-chien, como gerenciar animais.

Mesmo a fenomenal Amazon, quase uma unanimidade de aprovação de modelo de negócio, provendo rapidez, acessibilidade, custo e orientação a clientes tem seu “outro lado” da história. O documentário “Amazon: The Truth Behind the Click” da série Panorama da BBC apresentado em 2013 mostra como a varejista online que transformou a forma como os clientes compram, trata os colaboradores que selecionam mercadorias em seus armazéns (denominados “pick ambassadors“). Amazon tem orgulho de dizer que promove um ambiente de trabalho seguro e positivo, o que não coincide com a opinião da maioria de seus colaboradores. O documentário é o resultado da investigação do repórter Richard Bilton com ajuda de Adam Littler, 23, que secretamente filmou o ambiente de trabalho após conseguir um emprego no regime de “zero hours contracts” no armazém de Swansea. Com as piores condições de trabalho da Grã-Bretanha segundo os sindicalistas, o documentário exibe como os colaboradores da Amazon se transformaram em robôs, com seus scanners de mão e meta de busca e seleção de 110 mercadorias por hora, ou uma mercadoria a cada 32,7 segundos, mesmo no escuro. O scanner (que inicia uma nova contagem regressiva a cada item selecionado) e a pulseira de controle que usam, enviam a produtividade individual diária para os supervisores que tomam medidas disciplinares caso a meta não seja alcançada. Adam, um jovem em excelente forma física e muito esforçado, nunca conseguia alcançar a meta, mesmo andando em média 18 km por dia no armazém (podendo chegar a 40 km), empurrando com determinação seu carrinho de seleção de mercadorias e acumulando bolhas nos pés ao final de cada dia.

Em todo mundo, aumenta o número de pessoas que não aceitam mais se conformar com a mediocridade de trabalhar infelizes para tentar alguma felicidade nas horas de folga. Seria possível criar organizações livres das patologias do ambiente de trabalho? Livre de estresse, resignação, resentimento e apatia? É possível introduzir novos modelos que tornem o trabalho mais produtivo, realizador do potencial humano e com significado às pessoas?

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