A pandemia expôs a falácia do “profissional ideal”

por Joan C. Williams em hbrbr.com.br

Com a maioria de nós trabalhando de casa ultimamente, o dia útil dos americanos aumentou em 40% – em aproximadamente três horas por dia – o maior aumento do mundo. Sim, eu fui investigar. Eu também não acreditei. O problema da ocupação excessiva e da produtividade é que o preço é alto. Muitos funcionários estão fazendo o trabalho de três ou mais pessoas. Estão realizando o seu próprio, o trabalho da escolinha dos filhos e o da professora deles. Ainda assim, muitos empregadores parecem se esquecer disso. Escuto empresas garantindo com alegria a seus funcionários – e a si próprias – que todos estão trabalhando num ritmo próximo de, ou quase, 100%. Por que os gestores não enxergam o problema por detrás disso?

Porque ainda há uma ampla reverência ao “profissional ideal”.

Em geral, definimos o profissional como “ideal,” aquele que começa a trabalhar no início da idade adulta e continua, em período integral e a todo vapor, por 40 anos ininterruptos. O conceito reflete ao modelo do provedor da família que remonta à Revolução Industrial e que funcionou muito bem até os anos de 1960, até que as mulheres começaram a entrar no mercado de trabalho em grande número. Mas a norma do profissional ideal exigiu ainda mais das mulheres – que não só realizavam seu trabalho diuturnamente, como tinham de arcar com as responsabilidades para com a família e a casa.

No entanto, não são só as mulheres que sofrem com o peso da norma do “profissional ideal”. De acordo com uma pesquisa recente, 14% delas estão pensando em deixar a empresa devido a conflitos entre o trabalho e a família, relacionados à COVID-19. Talvez ainda mais surpreendente, a mesma coisa acontece com 11% dos homens. A minha organização disponibiliza um canal direto para os trabalhadores que se deparam com a discriminação relacionada às responsabilidades com a família e, o tempo todo, ouvimos homens cujas empresas possuem políticas de licença remunerada ultrapassadas, que concedem meses de licença aos “cuidadores principais”, mas concedem muito menos tempo aos “cuidadores secundários.” Todos nós estamos vendo como a pandemia está servindo para nivelar o campo de atuação, uma vez que os homens estão tendo mais responsabilidades domésticas do que tinham anteriormente. Isso não nega que as mulheres estejam fazendo mais coisas; o fato é que, com muita frequência, nem os homens, nem as mulheres são os profissionais ideais dos velhos tempos. Atualmente, uma linha importante separa as pessoas que têm filhos e as que não têm. “Percebi que há uma grande divisão entre os meus colegas advogados contenciosos. Aqueles que não têm filhos estão conseguindo fazer muitas coisas. Nós, que estamos com os filhos em casa, estamos litigando como se estivéssemos afundando em areia movediça,” afirmou Gordon Knapp, um advogado de São Francisco.

Certamente, estamos vendo o desaparecimento do “profissional ideal” cujas responsabilidades com a família são mantidas, cuidadosamente, longe dos olhos. Antes da COVID, muitos pais saiam sorrateiramente, para ir aos jogos da escola ou comandar um jogo de futebol; as mães trabalhadoras amamentavam seus filhos dentro dos carros estacionados fora da fábrica e os filhos adultos saiam discretamente para levar os mais velhos ao médico. Atualmente, há menos tabu porque não há como esconder. Na verdade, o tabu agora mudou de figura: os homens que são bastante antiquados, a ponto de ficarem envergonhados quando os filhos entram na sala – como o “pai da BBC”-  atualmente são alvo de chacota (talvez de maneira injusta, caso estivesse somente se mostrando do modo como as pessoas esperavam que fizesse). A COVID evidenciou o conflito entre uma geração mais velha de profissionais ideais e os homens mais jovens que veem o bom pai como aquele que se envolve nos cuidados diários com o filho. Um advogado interno de uma grande empresa me disse que “a COVID humanizou nossos líderes, pois eles agora enviam mensagens contando como estão lidando com os filhos, os cachorros, a mãe de 72 anos, tentando deixar claro que estamos todos junto nessa.”

Se houve alguma vez uma hora para dissipar a noção ultrapassada do “profissional ideal”, essa hora é agora.

No período pós-pandemia, vamos desenhar os ideais do ambiente de trabalho para que reflitam a atual vida das pessoas, em vez de refletir a de 50 anos atrás. Se você estiver com foco no engajamento dos funcionários, esse é o caminho (E se não estiver, deveria estar: um estudo recente mostrou que funcionários não engajados custam aos empregadores 34% do seu salário anual.).

O primeiro passo é institucionalizar o teletrabalho.

Outros representantes e eu sabemos há muito tempo que a barreira principal para uma adoção ampla do teletrabalho é a falta de imaginação. Isso acabou. Em vista da COVID, muitos trabalhos que eram “impossíveis de realizar de forma remota” passaram a ser com curto tempo de transição e custos modestos. No mês passado, aconteceram três coisas que tornaram o impensável passível de realização. As empresas têm investido o tempo e o dinheiro necessários para um acesso remoto sem intercorrências. Funcionários mais velhos que não tinham aptidão para a tecnologia, agora, investem tempo para descobrir como isso funciona. Supervisores descobriram como supervisionar as pessoas, sem ficar cobrando muito delas o tempo todo. O impensável se tornou não somente pensável, como também comum.

Mas temos de reconhecer que o teletrabalho em longo prazo é diferente do home office adotado por conta da crise, e que está muito difundido hoje em dia. O teletrabalho exige a presença de uma babá durante o horário comercial e uma organização que permita alta concentração no trabalho. Para os horistas em estados como a Califórnia, o teletrabalho também requer que os empregadores garantam proteção trabalhista estatutária, como refeições e intervalos de descanso. A maioria dos empregadores vai querer controles para limitar as horas extras.

A um nível mais profundo, as empresas precisam ser analíticas com relação à melhor função do trabalho remoto a ser adotado.

Muitas pesquisas mostram que o teletrabalho, em geral, torna o profissional mais produtivo – o que não é surpresa, dado o número menor de conversas sobre esportes ao redor do bebedouro. O trabalho remoto também torna as pessoas mais engajadas, satisfeitas e com baixa probabilidade de deixar a empresa. Os profissionais remotos, em geral, trabalham mais tempo – o que é de se esperar, uma vez que o americano passa, em média, 54 minutos no trajeto para o trabalho.

Não presuma que o teletrabalho é uma proposta tudo-ou-nada. Para muitas ocupações e empresas, o desafio será encontrar o equilíbrio certo entre o teletrabalho e o trabalho na empresa. O que muitos trabalhadores com alto conhecimento precisam é de um jato de interação desestruturada, seguida de horas em silêncio para executá-la – tempo este que é mais produtivo quando aproveitado fora do escritório. O encontro da combinação otimizada do trabalho remoto e do trabalho no escritório irá variar de empresa para empresa, de cargo para cargo e de pessoa para pessoa.

Como alguém inteligente uma vez disse, “nunca deixe uma crise ser desperdiçada”. Não vamos desperdiçar essa.

Em vez disso, vamos trabalhar em conjunto para garantir que o aspecto positivo dessa pandemia vasta e assombrosa seja uma nova definição do profissional, como alguém ambicioso, focado e comprometido – mas que também precisa equilibrar as obrigações do trabalho com as responsabilidades com a família. Quando há 30 milhões de crianças sem ir à escola, os empregadores não podem ignorar esse fato.

Joan C. Williams é Professora e Diretora fundadora do Center for WorkLife Law da Hastings College of the Law da University of California. Seu mais recente livro chama-se “White working class: overcoming class cluelessness in America“.

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