A ideia de felicidade no trabalho

por José Davi Furlan em LinkedIn

felicidade

Apesar de Gandhi ter dito que “não existe um caminho para a felicidade, felicidade é o caminho”, felicidade no trabalho é um termo estranho no mundo dos negócios e soa como contraditório, afinal como é possível trabalhar e ser feliz? Richard Branson, empresário britânico fundador do grupo Virgin, em sua biografia “Losing my Virginity” diz que o segredo do sucesso da Virgin é propiciar um ambiente em que as pessoas se realizem, que seja recompensador e que se possa desfrutar da vida no trabalho. Ressalta que tudo que é necessário fazer é contratar as pessoas certas e dar-lhes poder para atuar. Não existe contradição entre trabalho e felicidade, existe convergência, a melhor sociedade é aquela em que os cidadãos são mais felizes (Bentham). Se a organização possui os colaboradores certos, métricas e recompensas corretas, seu sucesso pode se fundamentar em valores humanísticos com excelentes resultados.

Autointitulado “Chief Happiness Officer“, ou Diretor de Felicidade, Alexander Kjerulf é reconhecido como um dos maiores especialistas contemporâneos em felicidade no trabalho. Cita que a conjunção das palavras “felicidade” e “trabalho” existe somente no vocabulário de países escandinavos. Arbejdsglaede (Arbejds = trabalho, glaede = felicidade) é o termo em dinamarquês. Faz parte da cultura desses países as pessoas buscarem um trabalho que gostem, que se sintam bem e felizes. No mundo em geral, o trabalho é visto como um fardo a ser carregado por quase toda a vida. Na busca pelo dinheiro, felicidade e trabalho não se encontram – o “dever de ser feliz” de Denis Diderot passa ao largo.

Em “Happiness at work” Jessica Pryce-Jones diz que felicidade no trabalho é uma questão que diz respeito a todos os colaboradores, sejam eles operacionais, táticos, estratégicos ou executivos. Os mais felizes são 47% mais produtivos, 75% menos ausentes por doenças, 180% mais dispostos, 108% mais engajados, 82% mais satisfeitos com o trabalho e 28% mais respeitosos com seus colegas. Uma significativa diferença em qualidade de vida e produtividade.

A ideia de felicidade no trabalho está conectada usualmente a promoções, aumento de remunerações, recebimento de bônus, títulos ou mesmo ser autorizado a utilizar uma nova sala. Recompensas relacionadas à auto-preservação e acesso a prazeres que geram alegria. Contudo, alegria é uma satisfação transitória que se desfaz após um breve período de tempo. Aumentos de remuneração ou acesso a novas instalações causam picos temporários de felicidade, mas uma vez adquiridas, tais recompensas passam a se constituir o novo “normal” e volta-se à estaca zero no marcador de felicidade.

Muitos interpretam satisfação como sinônimo de felicidade, pois se insatisfação gera infelicidade, a negação do primeiro leva à negação do segundo: satisfação gera felicidade. Essa conclusão é falsa. As pessoas têm dificuldade para relatar o que querem, o que gostam, o que as faz felizes, o que as deixa alegres, mas são extraordinariamente eficientes em declarar o que não querem, o que não gostam, o que as torna infelizes ou as deixa tristes. Se por um lado a insatisfação tende a perenizar, a satisfação é efêmera. Enquanto algo for ruim e penalizante, as pessoas permanecerão insatisfeitas, irritadas e estressadas. Se não melhorar, a insatisfação persistirá e dará motivo à infelicidade. Contudo, se forem feitas melhorias significativas, as pessoas passarão a estar satisfeitas e felizes nos primeiros momentos, mas o novo status quo será rapidamente incorporado à rotina diária e sairá de foco. A nova realidade não será avaliada como satisfatória na mesma intensidade que ocorria quando era insatisfatória. Se a infelicidade pode ser mantida com a chama contínua da insatisfação, a felicidade se desvanece na satisfação.

O filósofo Clóvis de Barros Filho diz que quem é feliz não pensa em felicidade, pois já a tem e se basta a si próprio; quem pensa em felicidade é porque ainda lhe falta. Felicidade não se limita à realização de desejos, porque quando desejos são satisfeitos deixam de ser desejados e a felicidade acaba. Para perpetuar a felicidade é possível criar uma sequência infinita de desejos, mas mesmo entre o fim de um desejo satisfeito e o início de um novo desejo haverá uma lacuna de infelicidade. A felicidade também não é somente a alegria pelo que já se tem, pois o que se tem deteriora com o tempo e deixa de existir trazendo a infelicidade. A felicidade passa pelo equilíbrio dos desejos pelo que não se tem com a alegria pelo que já se possui, fazendo com que as mesmices do cotidiano pareçam diferentes e mais interessantes a cada dia.

Algumas pessoas se declaram felizes com pouco enquanto outras são infelizes mesmo com muito. Saúde e dinheiro no bolso parece ser o desejo mais proclamado a cada ano que se inicia, mas para alcançar a felicidade é necessário ir além. A ciência tem revelado que fazer bem para outras pessoas causa um efeito mais benéfico do que fazer bem para si próprio. Solidariedade, humildade, carinho, gratidão, compaixão, amor pelo próximo, deixar um legado positivo e buscar o sucesso das demais pessoas são ingredientes que compõem a fórmula da felicidade.

As pessoas não desejam mais esperar até o final de suas vidas para começar a pensar sobre a diferença que podem fazer no mundo. Horas não passam quando não se gosta do que faz; horas voam quando se gosta do que faz. Então, não é uma questão de horas trabalhadas, mas do trabalho em si – horas desperdiçadas destroem uma vida tanto no início quanto no fim, só que no fim fica mais óbvio (Herman Wouk, O Motim do Caine). Quando existe um modelo de negócio que torna possível realizar a diferença que as pessoas querem fazer no mundo a paixão desperta.

Paixão é revigorante, contagiosa e persuasiva. O que Hegel diz é verdadeiro, nada de grandioso no mundo foi realizado sem paixão.

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